O VAR do trabalho
A Copa expôs uma ficção que muitas empresas insistem em manter
A Copa do Mundo produziu uma cena conhecida em milhares de empresas. Computadores divididos entre textos, planilhas e transmissões ao vivo. Abas do navegador fechadas às pressas quando alguém se aproxima. Reuniões marcadas em horários improváveis. Gente entrando em salas de videoconferência com um celular discretamente ao lado da tela. E líderes fingindo que não perceberam.
É o velho pacto do “me engana que eu gosto”.
A empresa faz de conta que todos estão integralmente focados no trabalho. Os funcionários fazem de conta que não estão acompanhando jogos que mobilizam o mundo inteiro. No fim, quase ninguém acredita na encenação. Curiosamente, muitas dessas organizações passaram anos discutindo culturas de confiança, autonomia, protagonismo e responsabilidade. Mas basta chegar um evento como a Copa para que a lógica do controle reapareça com toda a força. Não importa se o trabalho está em dia. Não importa se as entregas serão cumpridas. É preciso preservar a aparência de que todos seguem rigidamente presos ao expediente.
É claro que essa discussão não vale para todas as profissões. Há atividades em que o horário é parte da própria natureza do trabalho. Um cirurgião não pode se dar ao luxo de operar mais tarde para assistir ao primeiro tempo. Um operador de metrô, um enfermeiro, um atendente de emergência ou um trabalhador de linha de produção precisam estar presentes em horários específicos porque outras pessoas dependem diretamente disso. Nesses casos, a previsibilidade não é burocracia, é requisito operacional. Mas essa realidade não descreve boa parte da rotina dos trabalhadores do conhecimento. Quem desenvolve software, cria campanhas, escreve relatórios, analisa dados, elabora estratégias, pesquisa, desenha produtos ou conduz projetos frequentemente produz valor por meio da qualidade do raciocínio, da criatividade e capacidade de resolver problemas. Não pelo ato de permanecer sentado numa cadeira de nove da manhã a seis da tarde.
Mesmo assim, muitas empresas continuam administrando essas pessoas como se estivéssemos na era do cartão de ponto. A Copa só tornou essa contradição impossível de esconder. Se uma organização sabe que grande parte da equipe acompanhará um jogo importante, por que insistir na ficção? Por que obrigar todos a recorrerem a transmissões clandestinas, notificações silenciosas e justificativas improvisadas? Não seria mais inteligente assumir a realidade e reorganizar o trabalho? Não para jogos específicos, como os do Brasil, mas em definitivo. Dar autonomia para que cada equipe encontre a melhor solução.
Não se trata de ser “bonzinho”. Trata-se de administrar pessoas como adultos.
Há uma diferença enorme entre flexibilidade e ausência de responsabilidade. Empresas maduras conseguem combinar as duas coisas. Definem os objetivos de modo claro, estabelecem prazos, acompanham resultados e, ao mesmo tempo, reconhecem que nem toda hora produtiva se dá exatamente dentro do mesmo intervalo do relógio. Aliás, a inteligência artificial está acelerando essa mudança.
À medida que ferramentas de IA automatizam tarefas repetitivas e ampliam a produtividade individual, faz cada vez menos sentido medir contribuição pelo tempo de permanência diante da tela. O que passa a importar é o resultado entregue, a qualidade das decisões, a colaboração e a capacidade de resolver problemas complexos. O paradoxo é evidente: investimos bilhões em tecnologias para tornar o trabalho mais inteligente, enquanto continuamos administrando parte dos profissionais com regras desenhadas para uma economia em que presença física era sinônimo de produção. A Copa não criou essa incoerência. Mas a colocou em alta definição. Se você decide essas coisas, corre pra ver o VAR.
Quem regula quem?
Há pouco mais de um ano, os líderes da inteligência artificial repetiam um mantra: a tecnologia evoluía rápido demais para esperar governos. Hoje, o discurso mudou. Sam Altman (OpenAI), Dario Amodei (Anthropic) e Demis Hassabis (Google DeepMind) defendem agora a criação de um organismo capaz de avaliar os modelos mais poderosos antes de eles chegarem ao mercado. Não falam em barrar o avanço da inovação. Falam em testes independentes, padrões internacionais e avaliação de riscos para sistemas considerados de fronteira.
À primeira vista, parece apenas mais um capítulo do debate regulatório. Não é. O que mudou não foi a preocupação. Foi a percepção de que a inteligência artificial entra numa fase em que já não basta confiar que cada empresa fará os próprios testes de segurança. Essa mudança merece atenção. Ao longo dos últimos meses escrevi diversas vezes que a discussão sobre IA deixou de ser só tecnológica. Passou a ser econômica, organizacional e política. Economistas alertaram para os impactos no emprego. Conselhos de administração começaram a cobrar estratégias. Empresas passaram a rever estruturas, cargos e investimentos.
Agora surge mais um ingrediente: a governança da própria tecnologia. O curioso é que a proposta parte das empresas que disputam a liderança dessa corrida.
Há também uma dimensão geopolítica pouco discutida. As propostas não falam em criar um órgão global neutro. Todas apontam para uma liderança americana, capaz de estabelecer padrões que depois seriam adotados internacionalmente.
Em outras palavras, quem definir as regras poderá definir também o ritmo da inovação mundial. Para quem acompanha só os lançamentos de novos modelos, isso pode parecer detalhe burocrático. Não é. Os próximos anos provavelmente não vão ser definidos somente por quem construir a IA mais poderosa. Vão ser definidos também por quem decidir quando ela poderá ser usada, quais testes precisará superar, quais riscos são aceitáveis e quem terá autoridade para fazer esse julgamento. Essa talvez seja a verdadeira mudança de fase da inteligência artificial. A corrida deixou de ser só tecnológica. Passou a ser institucional.
Ajudamos organizações a compreender as transformações em curso no trabalho - e se antecipar a elas. Saiba o que a ODDDA pode fazer por você.
Entre em contato:
alexandre.teixeira657@gmail.com | LinkedIn | Whatsapp (Alexandre Teixeira)




