Trabalhamos menos — ou trabalhamos mal?
A polêmica das horas, produtividade e a escala 6×1
Deu na Folha de domingo: brasileiros trabalham menos que a media mundial.
O país ocupa posições inferiores em classificações de esforço e produtividade, entre dezenas de nações. "Economistas dizem que pode existir uma preferência por lazer, o que não é necessariamente ruim", escreveu o repórter Rafael Cariello.
Uma pesquisa com dados de 160 países, abrangendo 97% da população global, revela que trabalhadores de todo o mundo destinaram em média 42,7 horas semanais a atividades remuneradas em 2022 e 2023. Os brasileiros ocupados em empregos formais e informais dedicaram, nesse período, 40,1 horas semanais ao trabalho. O levantamento é do economista Daniel Duque, do FGV Ibre, a partir de um banco de dados global de horas trabalhadas organizado pelos economistas Amory Gethin, do Banco Mundial, e Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia em Berkeley. Na comparação com outros 86 países para os quais há dados por mais de duas décadas, o Brasil ocupa a 38ª posição em horas trabalhadas. Para Duque, o que provavelmente explica o desvio brasileiro é uma questão cultural, a já mencionada preferência por maior quantidade de lazer.
O Brasil tem mais horas de trabalho semanal do que EUA, França e Japão; embora abaixo da média mundial. Ou seja, a grosso modo, o estudo mostra a jornada semanal do Brasil acima de países desenvolvidos e abaixo da média global. “De modo geral, a característica que melhor explica a quantidade de horas trabalhadas no mundo fora é a produtividade dos trabalhadores", diz a Folha. "À medida que cresce a produtividade da economia nacional, quando os países deixam de ser pobres e se tornam países de renda média, aumenta o número de horas trabalhadas", afirma a reportagem. "A partir de certo ponto, contudo, a produtividade já é tão alta, e o consumo também, que os trabalhadores passam a dar mais valor para o lazer.” O que Duque descobriu é que os trabalhadores brasileiros escolheram "descer a serra" e trabalhar menos antes de ficarem ricos.
Como seria de se esperar, o dado repercutiu mal em diferentes setores e fóruns.
O vereador Rick Azevedo (PSOL), criador do movimento civil que trouxe a pauta de redução de jornada para o debate público, questionou no Instagram: “Bora lá no ponto de ônibus comigo, às 4 da manhã, explicar pro trabalhador que acorda antes do sol que ele ttrabalha menos que a média mundial, Folha de São Paulo?"
“Essa matéria rasa ignora jornada informal, horas extras não pagas, transporte exaustivo e a vida real de quem rala pra sobreviver", escreveu Azevedo.
O jornalista Daniel Camargos escreveu no seu blog na Carta Capital: "A Folha de S. Paulo acha que você trabalha pouco". É o velho e mau hábito de atirar no mensageiro de más notícias. O que a Folha fez foi noticiar uma pesquisa de fonte séria e evidente interesse. Ele entende, porém, que a matéria teria saído agora para bombardear a proposta governista de acabar com a escala de trabalho 6×1 — proposta essa, aliás, apoiada por esta newsletter. Para Camargos, jornais têm o direito de reportar dados e produzir rankings. Evidentemente. Segundo ele, o problema foi o tom empregado, além do momento: "Dizer que o país não é 'particularmente esforçado’ funcionou como eufemismo para chamar o trabalhador de preguiçoso no momento em que se discute a redução da jornada.”
O Diário do Centro do Mundo, um site de esquerda, foi na mesma linha: “Folha chama brasileiros de vagabundos para defender a escala 6×1”. Mas atacou o mensageiro com mais virulência: "A Folha sempre foi famosa por levar seus jornalistas ao colapso. Um ex-editor se escondeu debaixo da mesa após uma jornada extenuante. Foi internado logo depois e se demitiu", afirmou Kiko Nogueira, diretor do DCM. "Ignora-se informalidade, horas extras não pagas, bicos acumulados, jornadas intermitentes e três horas diárias dentro de ônibus e trens lotados", informa ele, repetindo os argumentos de Camargos, ao criticar a matéria. "Produtividade não depende só de suor", pondera Nogueira. "Se fosse questão de esforço individual, bastava impor 90 horas semanais e esperar o milagre (…) Chamar isso de análise é generoso.” O pano de fundo é o debate sobre o fim da escala 6×1. "Sempre que a discussão avança, surge um estudo 'neutro’ para relativizar o desgaste e defender que trabalhar mais resolve tudo", diz ele.
Brasileiro trabalha muito e produz pouco
O debate que se seguiu à reportagem da Folha partiu de uma premissa quase moral: trabalhamos muito ou pouco? Somos esforçados ou preguiçosos? Mas o ponto mais relevante talvez não seja o número de horas — e sim o que fazemos com elas. O Brasil não é um ponto fora da curva em carga horária. Trabalha mais do que alguns países desenvolvidos e menos do que a média global. Ainda assim, segue patinando em produtividade. E produtividade não é sinônimo de suor acumulado. É resultado por hora trabalhada. É organização, tecnologia, gestão, infraestrutura, qualificação e ambiente institucional. É eficiência sistêmica.
Quando a discussão se reduz a horas semanais, corre-se o risco de tratar um problema estrutural como se fosse um dilema de disposição individual. A literatura econômica mostra que, em estágios iniciais de desenvolvimento, o aumento da produtividade costuma vir, sim, acompanhado de mais horas trabalhadas. Em fases mais avançadas, a lógica se inverte: produz-se mais em menos tempo, e o lazer vira uma escolha racional. A questão brasileira é que ainda não fizemos plenamente nenhuma das duas coisas. Há, ainda, o fator invisível: informalidade, deslocamentos extenuantes, múltiplos vínculos, horas extras não registradas. Parte do trabalho no Brasil não aparece nas estatísticas.
Mas outra parte, talvez mais desconfortável, aparece e revela um problema diferente: baixa eficiência na alocação do tempo produtivo. Empresas mal geridas, processos redundantes, burocracia, tecnologia subutilizada, lideranças pouco preparadas, reuniões intermináveis, metas difusas. Soma-se a isso o sistema educacional desigual e a infraestrutura precária. O resultado é um país onde se passa muito tempo trabalhando e produz-se menos do que se poderia.
É nesse ponto que o debate sobre a Escala 6×1 se torna mais complexo. Reduzir a jornada pode ser um avanço civilizatório, especialmente em setores de alta exaustão. Mas, se não houver ganhos de produtividade, inovação organizacional e melhoria de gestão, o risco é redistribuir ineficiências — e não superá-las.
A polêmica expôs um incômodo coletivo porque tocou num nervo sensível: ninguém quer ser chamado de preguiçoso. E com razão. O trabalhador brasileiro, em geral, não é pouco esforçado. O que temos é um ambiente econômico que desperdiça esforço. Talvez o ponto não seja que trabalhamos pouco. Nem que trabalhamos demais. Mas que trabalhamos mal — no sentido estrutural do termo.
A sexta-feira fantasma
Na semana passada, o Financial Times chamou atenção para uma situação curiosa, que tem certa relação com esse debate sobre trabalhar muito ou pouco, com maior ou menor produtividade, mas no Reino Unido: a dos funcionários que trabalham quatro dias na semana secretamente. "Algumas empresas estabeleceram essa jornada como política oficial mas, ao mesmo tempo, profissionais têm adotado uma atitude mais relaxada sobre trabalhar nas sextas-feiras", afirma a reportagem, traduzida e publicada pelo Valor. Tanto o governo trabalhista do Reino Unido quanto seu antecessor conservador criticam a adoção da semana de quatro dias por órgãos do setor público. Na iniciativa privada, um número crescente de empresas adotou esse modelo de jornada como política durante ou depois da pandemia de covid-19. A novidade é que muitas empresas britânicas têm funcionários que parecem cumprir uma jornada de trabalho bastante reduzida nas sextas-feiras sem aprovação de seus superiores.
Locais de trabalho que adotam a política oficialmente costumam mencionar melhorias na produtividade e no bem-estar dos funcionários. No ano passado, o governo da Escócia registrou aumentos nesses dois pontos como resultado de um teste da semana de quatro dias em dois departamentos. Em agosto, a Agência Nacional de Estatísticas (ONS na sigla em inglês) divulgou dados que sugerem que mais de 100 mil trabalhadores no Reino Unido mudaram para a semana de trabalho de quatro dias desde 2019. “Não existem dados sobre funcionários que cumprem jornadas semanais de quatro dias de maneira não oficial por causa da natureza furtiva desse padrão de trabalho. Mas nos setores de lazer e varejo já há alguns primeiros indícios de uma atitude mais relaxada e informal em relação a trabalhar nas sextas-feiras", nota o Financial Times.
Até o momento, não há indícios fortes ou dados confiáveis de que trabalhadores no Brasil estejam adotando — de forma “furtiva” ou não oficial — uma semana de quatro dias simplesmente deixando de trabalhar às sextas-feiras sem autorização de seus empregadores, como foi relatado no caso do Reino Unido.
O que existe no Brasil, segundo as análises públicas e as pesquisas disponíveis, são iniciativas mais formais ou experimentais em torno da redução da jornada de trabalho. Há experimentos piloto da semana de quatro dias em empresas brasileiras, com adoção oficial do modelo acordado entre empregadores e empregados, e não casos generalizados de trabalhadores “burlando” a jornada sem aprovação. Essas iniciativas mostram, por exemplo, empresas que reduzem carga horária com manutenção de salário e foco em produtividade e bem-estar.
O debate sobre redução da jornada de trabalho legal no Brasil está ativo no Congresso e na sociedade, especialmente com propostas para acabar com a escala 6×1 e ampliar tempo de descanso, o que reflete uma preocupação política e social com o tema. Em pesquisas pesquisas sobre o assunto, a maioria dos trabalhadores brasileiros afirma que teria mais qualidade de vida com um dia livre adicional e acredita que pode manter a produtividade em menos dias.
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